Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

Grandes Descobertas

“O acaso só favorece aos espíritos preparados e não prescinde da observação.”
Louis Pasteur (1822 – 1895)
 
         Já muitas vezes se ouviu que algo se descobriu acidentalmente, mas será legítimo questionar o lugar do acaso nas descobertas científicas? Popper é assertivo na sua posição quando defende o método científico como a receita a seguir pelos cientistas nesta complexidade que é “fazer ciência”, mas como negar a quantidade de descobertas que não foram fruto de uma investigação que se lhes dirigia?
         A ciência é vista geralmente como um conhecimento metódico que visa o atingir de objectivos previstos no seguir de um protocolo, mas o historial de cientistas que simplesmente esbarraram com situações mais tarde reconhecidas como relevantes esbate essa ideia. Assim, é necessário que o acaso esteja inserido no grande tema do site, num referir da sua participação pouco ortodoxa no rigor científico e no reflectir no futuro da investigação.
         Temos vários exemplos para expor tendo em conta a não expectativa do cientista, que apresentamos seguidamente.
         Alexandre Fleming era bacteriologista no St . Mary’s Hospital, em Londres, Inglaterra, e ambicionava encontrar substâncias que impedissem a infecção das feridas, preocupação extrapolada dos hospitais de campanha da I Guerra Mundial, onde havia trabalhado como médico, para o seu laboratório. Após pequenas descobertas não conclusivas, Fleming deparou-se com uma situação não prevista.
         Em Agosto de 1928, o cientista foi de férias deixando para trás culturas de estafilococos, de forma imprudente, pois não as inutilizou nem, pelo contrário, guardou devidamente. Assim, quando regressou no mês seguinte encontrou as bactérias contaminadas com mofo, procedendo já à medida mais correcta, indo lavar e esterilizar o material. A acção não foi concretizada devido à chegada de Dr. Merlin Pryce , antigo assistente de Fleming, que se mostrou interessado no desenvolver do seu trabalho. Este último mostrou-lhe as culturas afectadas e foi aí que notou a presença de uma substância bactericida que parecia impedir o contágio do mofo em certas zonas da cultura – o fungo que causara o mofo segregava uma substância que matava as bactérias. Após tal verificação, o bacteriologista decidiu então, fazer mais estudos sobre culturas desse fungo, identificado como Penicillium notatum , de onde deriva o nome da conhecida Penicilina, por ele produzida. Os seus efeitos bacteriológicos verificaram-se benéficos, e a descoberta de Fleming acabou por encontrar gigantesca utilidade, tendo o seu impacto sido inicialmente sentido na II Guerra Mundial.
         É de considerar a presença de uma chamada “coincidência”, já que se afirma que apenas a exacta sequência de eventos que se acabaram por concretizar poderia ter culminado no que se assume como o início da era dos medicamentos – a descoberta da penicilina. Após várias tentativas falhadas de reunir as mesmas condições para que a descoberta se repetisse, chegou-se à conclusão que muitos factores foram cruciais para os resultados de Fleming: o tipo de fungo, por ser um dos três melhores produtores de penicilina; o facto de o seu laboratório estar sob outro que realizava pesquisas em fungos; o tempo necessário ter sido permitido devido às férias de Alexandre Fleming; a temperatura ideal ter sido fornecida por uma inesperada onda de frio durante o Verão londrino; e a conservação das culturas permitida pela inocente entrada de Pryce no laboratório, impedindo as limpezas de Fleming. Apenas na junção de todos estes aspectos aparentemente triviais pôde ter sido decoberta a penicilina, neste caso, mas é nosso dever referir outro: a predesposição do cientista para reparar no que muitos teriam ignorado – e só assim o acaso se elevou ao posto que muitos cientistas pretendem alcançar.

         Outra situação ilustrativa é a descoberta do fósforo, um acidente de percurso nas ambições de um alquimista. Em 1669, o alemão Henning Brand ambicionava a Pedra Filosofal, tentando transformar metal em ouro. Para isso, teve a incrível ideia de encher 50 baldes de urina, deixá-los putrificar e criar vermes, tendo fervido a substância até conseguir uma pasta branca fétida que destilou de seguida. Acabou por conseguir uma substância cerosa translúcida, que brilhava no escuro e entrava em combustão espontânea quando exposta ao ar, sendo, por isso, chamado de “Fósforo” (Phosphorus, o "portador da luz"). Brand acabou muito longe do seu objectivo, mas o que hoje se considera ter sido obra do acaso foi-lhe talvez mais compensador, já que, não se conhecendo outras vias de produção do novo elemento descoberto, o fósfoforo chegou a ser vendido ainda mais caro que o ouro. O acaso foi uma espécie de engano: na procura de A, encontra-se B, e, mesmo despropositadamente, isso pode ter um grande impacto científico, como se verificou no próximo exenplo.

         Em 1963, Arno Penzias e Robert Wilson trabalhavam com uma antena para medir microondas quando encontraram um barulho estático desconhecido e irritante que prejudicava os seus resultados. Mesmo lutando contra tudo o que pudesse ser causador de tal ruído, tendo verificado toda a antena, revisto todos os circuitos eléctricos, afastando os pombos e limpando os seus dejectos, os cientistas de Holmdel, Nova Jersia, não conseguiram eliminar o som incómodo e de origem incerta. Entretanto, na Universidade de Princeton, a apenas 50 km da situação anterior, Robert Dicke procurava, ainda sem sucesso, aquilo de que se queriam livrar os cientistas anteriores – a Radiação Cósmica de Fundo. A equipa de Dicke estava a desenvolver a ideia do físico russo George Gamow, que previu esta radiação teoricamente; acontecia era que nenhum dos investigadores de Holmdel tinha conhecimento disso. No entanto, Penzias e Wilson telefonaram para Princeton, com esperanças que Dicke lhes resolvesse o problema. Este, ouvindo o que deitava por terra o seu enorme esforço, dirigiu-se à sua equipa numa frase que ficou famosa: “Rapazes, passaram-nos a perna.” Assim, por essa descoberta e descrição tão importante para o estudo do universo, Penzias e Wilson receberam o Prémio Nobel da Física em 1978, apesar de terem descoberto algo que não procuravam, não souberam explicar nem continuaram a estudar. Ainda assim, foi o seu espírito curioso que os manteve na procura de uma explicação, os impediu de desistir e os impeliu para trocar ideias com outros cientistas.
         O acaso pode não ter grande valor para quem vê a ciência com a simplicidade de um protocolo, mas a descoberta dos raios-x, do efeito fotoeléctrico, da fotografia, da radiação e dos casos atrás descritos, por exemplo, obrigam o espectador comum a considerar um outro lado da ciência: um lado aberto à imaginação, ao questionar dos fenómenos e ao flexibilizar dos objectivos a alcançar. Acima de tudo, são os espíritos curiosos e inquietos dos cientistas que tornam as descobertas acidentais completamente legítimas, já que dependem dos sentidos de quem as percepcionam e da importância que lhes é dada. Talvez isto contradiga Arthur Schopenhauer, filósofo alemão do sec. XIX, quando este afirmava não existir vento favorável para quem não sabe para onde vai. Será?
 

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Créditos de imagem: autoria de ash4267 (http://ash4267.deviantart.com)
Publicado por acienciaeofuturo às 08:30
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2 comentários:
De olga servulo a 4 de Abril de 2009 às 17:43
Gostei muito deste blog e desta abordagem sobre os acasos. É para se ficar pensando...
Encontrei, no entanto, uma pequenina falha: a data relativa ao Fósforo e ao Henning Brand. Está como 1969; não seria 1669?


De acienciaeofuturo a 12 de Maio de 2009 às 13:03
Cara Olga,
Agradeço pela sua visita, pelo comentário, e sobretudo pela sua atenção. Agora sim, a data está correcto (1669)!

cumprimentos,
"A gerência"



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