Quinta-feira, 10 de Maio de 2007

A medicina do Futuro

“Sei que esta ínfima coisa
 Irá salvar miríades de homens.
Oh Morte, onde está o teu poder?
A tua vitória, oh túmulo?”
                                            Ronald Ross (1857-1932)

 

     Hoje em dia, a abordagem feita ao atendimento médico parece prender-se com as condições das instalações hospitalares e com a falta de profissionais na área da saúde. Fala-se também no facto do curso de medicina estar fora de alcance ao comum dos mortais estudantes, mas também de que os níveis de exigência em relação aos técnicos de saúde devem ser aumentados. Considerações à parte, sendo natural o reparo dos utentes em relação a uma área literalmente vital para eles, é também natural a tentativa de prever o futuro da medicina, como inserida num todo conjunto de prestações de serviços cujas técnicas estão à mercê do avanço científico e tecnológico. 
     Há certos campos previstos de estar em voga no futuro, como é o caso da Medicina Estética. Num mundo que sobrevaloriza o aspecto, a preocupação com a beleza termina muitas vezes nos blocos operatórios. Essa preocupação pode destacar-se positivamente da futilidade estética quando se fala da obesidade, por exemplo, tão comum hoje em dia, entrando-se num campo onde a beleza e a saúde se confundem - com a legitima necessidade de auto-estima, necessária para uma boa qualidade de vida, intimamente ligada à saúde. A boa aparência é pretendida como exterior de um corpo saudável, mas não é por aqui, porém, que se fica a previsão para os cuidados médicos dos próximos anos.
     A medicina do futuro está, como o resto, praticamente dependente do avanço dos restantes campos da ciência, mas também subjugado à aceitação da sociedade e de entidade especializadas mediante os impactos que pode provocar na tranquilidade ética. Assim, nos próximos tempos veremos mudanças radicais no tratamento das doenças, cuja antecipação poderá preparar mentalidades para a sua aceitação ponderada.
     Toda a insegurança perante a medicina do futuro anda de mãos dadas com a esperança nela depositada, por estar assente, em grande parte, numa das áreas de maior expectativa: a genética. Baseada neste ponto, Mayana Zatz , geneticista brasileira, reitora de pesquisa e directora do Centro de Estudos do Genoma Humano da Universidade de São Paulo, admite a medicina do futuro como uma medicina 4P ”. Parecendo uma designação estranha perante a perspectiva que consideramos da nossa actual medicina, passamos a explicar.
     Uma medicina 4P ” representa uma medicina Preditiva , Preventiva, Personalizada e Participativa – baseada em projectos de renome mundial cuja aplicação poderá ser mais prática do que se pensa (o famoso Projecto Genoma , e outros mais desconhecidos como Projecto Transcriptoma (expressão genética), o Projecto Proteoma (produção proteica) e o Projecto Metaboloma (produção de metabólitos ).

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 Crédito de imagem: autoria de mahmoody (http://mahmoody.deviantart.com)

     A componente preditiva vai recair sobre a antevisão de doenças possíveis de serem desenvolvidas por um paciente, através do estudo do seu genoma pessoal, entrando depois na componente preventiva, num evitar de enfermidades.  Quando estas forem inevitáveis, não sendo suficiente a previsão feita, talvez já rotineiramente, o seu tratamento será personalizado, ou seja, individual, com o desenvolvimento dos fármacos adequados os genes de cada um. Perante tudo isto, a componente participativa provirá do facto de o paciente estar consciente do seu potencial genético, predisposição para doenças e possibilidades de tratamento, podendo intervir activamente no campo da sua saúde. A acrescentar temos ainda a medicina Regenerativa, que pretende actuar ao nível da substituição de células danificadas, levando ao aumento da esperança média de vida.
     Este conjunto de práticas médicas pode fazer-nos imaginar o fim das listas de espera, da má reacção a medicamentos ou mesmo do cancro e outro tipo de doenças. Todavia, não sendo ainda possível prever repercussões positivas ou negativas, podemos facilmente conjecturar a dificuldade que será a implantação de novos métodos num serviço médico tão debilitado, para além das implicações ética que a dita mudança na medicina poder a provocar. A maior polémica prende-se com a liberdade de informação pessoal: enquanto que os benefícios da medicina dita 4P ” para o próprio paciente serão previsivelmente numerosos, a informação de uma potencial enfermidade poderá prejudicar a obtenção de um seguro ou a candidatura a um emprego. Perante tal cenário, já grande é a discussão sobre o limite de conhecimento disponível, mas o consenso prende-se numa clara mudança de mentalidades adaptada à mudança do tratamento médico e ao novo fluxo de informação. Pretende-se uma base de dados necessária, mas cujo acesso será limitado; e uma legislação rígida o suficiente para prevenir as impensáveis discriminações.
     Porém, nem assim todos os problemas ficariam resolvidos, já que o abranger da nova medicina a toda a população seria lento e custoso. Para evitar o privilégio de certos grupos sociais será inevitável muito esforço e dedicação, tanto da classe médica e relacionados como de políticos e governantes. É necessário rever prioridades e permitir que o avanço científico e tecnológico seja usado da melhor maneira para nosso próprio benefício. Para que a falada medicina do futuro seja de facto viável, é necessário que a saúde esteja na linha da frente das prioridades de todos.

 

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 (Crédito de imagem: http://www.iqb.com.br/Medicina_9/Destaque.htm)

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Créditos de imagem: referenciados no texto
Publicado por acienciaeofuturo às 08:43
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